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03
Jul19

SNS - Apresento a Liliana

por Mãe Maria

Para quem não conhece a Liliana, deixo-vos aqui o endereço do seu blog , concorrente da sapo mas, mesmo assim, tenho de vo-la apresentar. Não a conheço mas é como se a conhecesse. Mesmo que virtualmente seja o meu conhecimento dela eu creio que tem um coração do tamanho do universo, que uma vencedora e uma miúda fabulosa. Não fosse a ajuda dos médicos do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), ela não se encontrava já neste mundo, conforme nos conta num post seu que, nos escreveu na sua página do face:

"Há meses que tinha esta consulta de otorrino agendada num hospital público para a Ana. Não sendo nada urgente, é importante que seja vista por um médico de especialidade.
Hoje era o dia. Esperámos duas horas até que uma enfermeira teve a tarefa aborrecida de me explicar a mim (e a outros pais que estavam na sala de espera) que não conseguiam localizar a médica, pelo que, presumiam que estava de greve.
Eu devo literalmente a minha vida a vários médicos.
Ao Dr. Gentil Martins que me operou em condições muito adversas sendo eu prematura de muito baixo peso, aos quinze dias de vida, depois de me recusarem a operar porque “não valia a pena porque assim como assim ia morrer”. Sobrevivi.
Ao Dr. Torrado da Silva e à Dra. Karin Dias que orientaram os meus pais, dois miúdos de vinte anos, e os ensinaram a cuidar de uma recém nascida com uma patologia grave.
À Dra. Arlete Martins do CMRA que dos 2 meses aos 18 anos acompanhou cada decisão cirúrgica em conjunto com o Dr. Salis do Amaral, cada período de reabilitação pós cirúrgica, cada estádio do desenvolvimento e desafios novos que se colocavam. Que já na puberdade me liberou das botas ortopédicas e das talas e assistiu, à minha marcha autónoma, de lágrimas nos olhos.
A Dra. Guilhermina Ladeira acompanhou a minha gravidez de alto risco, recebeu-me em cada urgência, ouviu todos os desabafos da minha depressao pré-parto, aliviou-me com serenidade cada angústia e interrompeu as suas férias para vir ajudar a Ana a vir ao Mundo e cozer-me a bainha de amor que restou na minha barriga. Nunca a esqueceremos.
Recentemente tive um problema de saúde e foi a Dra. Daniela Marto, o Dr. Alexandre Camões e a Dra. Sílvia Barbosa a que me salvaram. Literalmente. Sempre com genuíno interesse, preocupações para além das clínicas e amor pelo próximo. Que somos todos. Que fui eu.
Se não fosse o SNS eu não estaria viva. Mas se não fossem os médicos eu não só não estaria viva como não seria a pessoa com marcha autónoma, potencial cognitivo intacto, capacidade de auto gestão das limitações inerentes à minha patologia, mãe, funcional e resolvida que sou hoje.
Não foram apenas procedimentos clínicos. O Dr. Gentil Martins não se limitou a encerrar a minha mielomeningocelo: arriscou operar-me, importou-se, investiu, acreditou. A Dra. Karin Dias e o Dr. Torrado não se limitaram a acompanhar os primeiros meses: capacitaram os meus pais, confortaram-nos, fizeram-nos vincular-se e acreditar no meu potencial. A Dra. Arlete não me prescreveu apenas ortoteses: deu-me lições de exigência, rigor e resiliência, não se condescendeu e fez-me alcançar sempre o máximo do meu potencial, acompanhou a minha mãe no pós divórcio com a missão de quem é mais de que uma médica. O Dr. Salis do Amaral não me retirou apenas o cuboide e fez-me o alongamento do tendão de Aquiles: ia todos os dias, mesmo os de folga, à minha cabeceira da cama do hospital Sant’Ana para me chamar campeã. E eu acreditava.
A Dra. Guilhermina não me fez apenas uma cesariana: preparou-me nos meses de gravidez para ser mãe da Ana, sem medos nem receios, com confiança e segurança. Capaz.
A Dra. Daniela não me receitou apenas medicação na consulta da dor: salvou-me de uma depressão, do desespero. A Dra. Silvia Barbosa e o Dr. Alexandre Camões não me fizeram apenas infiltrações: devolveram-me a marcha, devolveram à minha filha a sua mãe.
Hoje a Ana não teve consulta de otorrino. E eu expliquei-lhe o porquê e tudo bem: os médicos são nossos amigos.
E nós aos amigos fazemos sempre uma única coisa: estamos com eles, apoiamo-los.
Hoje esta greve também é nossa: de todos os que foram salvos pelo SNS e que o querem inteiro. De todos os que devem as suas vidas aos médicos que não são apenas médicos: são pessoas que salvam pessoas. E que o devem fazer num contexto da maior dignidade. Pessoas que escolheram uma profissão de amor. Obrigada."

Nós passamos a vida a dizer mal do nosso SNS. Umas vezes porque fomos atingidos por uma qualquer negligência, atrasos brutais, outras só porque embirramos e não toleramos. Para trás fica o esquecimento e a gratidão a todos aqueles profissinais que, na sua grande maioria, são dos melhores que temos. E muitos trabalham em condições bem adversas, ultrapassando barreira físicas, linguísticas, de salubridade, de stress, sem deixarem de nos tratarem no melhor que sabem.

Eu nunca esquecerei a minha fabulosa médica do Centro de Saúde, a Dra. Teresa Agostinho, que era uma médica, psicóloga, uma amiga, que não descurava rigorosamente nada. E as condições de trabalho eram tão frágeis, num ambiente de doentes difíceis por mil e uma razões. Ela chegava ser a porteira do Centro, porque não apressava o cuidar dos seus doentes, quando a hora de fecho do Centro se aproximava. Aceitava com um sorriso o "até amanhã" da funcionária administrativa, ficando apenas ela e os seus doentes, cuidando de nós, meticulosamente.

 

 


2 comentários

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Maria 03.07.2019

Li ontem este texto da Liliana. Foi também a impressão que me deixou. Uma pessoa fabulosa, grata e sem qualquer rancor.

Ainda existem pessoas com um grande coração.

Um.bom dia , Mãe Maria.
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Mãe Maria 04.07.2019

Creio que não estamos enganadas.

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