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4 sapos

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13
Nov19

Sinto-me desformatada com o Natal


Mãe Maria

A meu ver, não se acorda bem-disposto, para vivermos as fobias do Natal, assim, de um minuto para o outro. Convenhamos. Eu não consigo.

Fomos formatados que natal é tempo de paz, amor e harmonia, a divertirmo-nos só com o que aparecia excecionalmente nessa época. Ao invés, a formatação alterou-se e somos bombardeados pelas superfícies comerciais que se inflamam nesta altura, não nos deixando margens para nos conseguirmos safar e terminar mais um ano, monetariamente menos delapidados. Lá se foi a paz e a harmonia para as calendas gregas.

Convenhamos, sei que é uma época de tradições e estas são para serem cumpridas. Mas, com as exigências diárias que nos vemos envolvidos, com as mudanças de gostos da malta de agora, mas uma pitada do politicamente correto, fica complicado cumprir e sairmos ilesos de tanta profusão negativa.

Por isso:

  • Esqueçam o cheirinho dos pinheiros que vinha do fundo da rua, e que depois se prolongava para dentro de casa. O brilho das luzes está agora no pinheiro de plástico porque a natureza agradece, até de branco se pintaram;

 

  • Esqueçam a reunião harmoniosa da família. Sim, é bonita a ideia. Mas como? Se cada um vive para lados oposto: são filhos com o pai ao fim de semana, e com a mãe durante a semana e o natal, é conforme o determinado no papel; pais com namorados e poucos compromissos, para nesta hora terem de assumir seja o que for; há filhos(as) que estão juntos com um(a) companheira, e para que lado eles esticarão os abraços: vão para casa do(a) namorado(a) ou cada um para seu lado?; há avós/pais que estão no lar e tirá-los de lá, convenhamos, não dá jeito, não convém, ou whathever, e lá fica a mesa de natal incompleta;

 

  • Esqueçam aquela parte boa de passarmos a tarde do dia 24, dentro e fora da cozinha, num movimento giratório, meio maroto, para irmos beliscando e petiscando, às escondidas, umas coisinhas, enquanto a mãe cozinhava os petiscos natalícios para a ceia do natal;

 

  • Esqueçam aquele cheirinho a fritos, misturado com o cheiro da calda de açúcar com baunilha, que os vai regar, ou da canela, para quem prefere borrifá-los com ela. Levante o dedo quem tem filhos, hoje, adeptos das fatias douradas ou paridas, também conhecidas por rabanadas, pelos sonhos ou filhoses;

 

  • Esqueçam o cheiro do bacalhau cozido, das couves tronchudas, da batata cozida, das almotolias cheias de azeite e dos alhos descascados para acompanhar o rei da festa. Já pouco se sabe disto nas gerações vindouras. Bacalhau com natas, ainda vai para o bucho mas, se for um hambúrguer do MacDonalds, melhor ainda. Verdade?

 

  • Esqueçam a bonita travessa de arroz doce e da aletria, meticulosamente enfeitada com a canela. Todos queríamos sermos os pintores dessa obra doce. Só o mais “older people” da casa se aventuram a estes manjares, mas com cuidado, não vão a tensão ou os diabetes estragar-lhes este prazer;

 

  • Esqueçam o cheirinho do Bolo Rei, mesmo comprado na mais tradicional loja da cidade. Vai melhor o Bolo Rainha, que até aqui já quem manda, acaba por ser a mulher. Ah, pois é;

 

  • Esqueçam enfeitarem a mesa com frutos secos, nozes, figos, passas, blhac, dizem eles, que nem lhes tocam, quer a mesa esteja cheia deles, quer não;

 

  • Esqueçam a tradição da abertura dos presentes ao amanhecer do dia 25. É tal a pressa de abrir os gigantes embrulhos que se foi o desassossego da noite porque a mãe, depois de irmos dormir, metamorfoseava-se de Menino Jesus e colocava os presentes ao pé do presépio, que até este, hoje, é arredado para o canto mais inócuo ao fundo da árvore;

 

  • Esqueçam muita coisa que o natal já não é o que era. Há uma formatação mediática que deixa de lado qualquer espontaneidade criativa; há uma alteração evidente de gostos e escolhas sociais; há toda uma panóplia de emoções que nos encaminham para lados bem diferentes daqueles que fomos formatadas, quando a infância nos dava metade do que se tem nos dias que correm.

Sobram os pais Natal de chocolate, e os sacos cheios de amêndoas só feitas com chocolate que, as de açúcar com uma amêndoa seca por dentro, caíram em desuso. Por estes doces a malta ainda se lambuza. Mas se na mesa houver uma mousse de oreos, venha ela que será a rainha da festa dos doces.

Não me convencem. Pronto. Com muito pessimismo à mistura, eu sei, mas sinto-me desformatada e com dificuldades para fazer os ajustes aos novos ventos. Pareço uma mendiga de sentimentos inexistentes.

Estou, assim, desgostosa com esta época. E quero que ela passe rapidinho.

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