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4 sapos

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10
Dez18

O Bolo Rei que não é rei nenhum

Mãe Maria

Bolos reis secos, ou de massa que se agarram aos dentes, outros só com muitas passas, amêndoas inteiras e muito açúcar por cima para esconder os espaços sem as frutas habituais, outros ainda com fios de ovos por cima ou à volta, enfim, uma panóplia de bolos reis sem qualquer definição justa ao tão típico rei da mesa de natal. Hoje, há quem o substitua pelos bolos rainhas. Do mal, o menos.

A mim, nada disto me convence.

Quando era garota este bolo era o centro dos doces natalícios, embora não fosse o centro das atenções. Raramente era aberto na noite da consoada. Havia tantos outros doces mais interessantes que ele.
Só no dia de natal, já com as barrigas fartas de tanto açúcar, é que os olhos se viravam para este bolo ainda intacto e esquecido, para ser a companhia de um chá, destinado a limpar as azias causadas pelos excessos.

E sabia tão bem comê-lo. Melhor ainda nos dias seguintes.

Era um bolo feito com a mestria da mãe. A tarde anterior, ao dia da confeção, era passada a cortar as frutas, sempre com a vigia da mãe. Havia abóbora, pera, figo, cerejas, casca de laranja, ananás, tudo elas cristalizadas, compradas avulso, numa loja de Lisboa, que a mãe encomendava com antecedência a familiares que viviam por cá. Depois, partíamos as nozes, amêndoas e avelãs com um martelo, tentando evitar um azar, que nos cusava lágrimas. Eram, de seguida cortados em pedaços, mais pequenos, para não sermos sujeitos a partir um dente com uma amêndoa inteira, que é o pão nosso dos bolos de hoje. Não faltavam pinhões que, curiosamente, eram os frutos secos que menos gostava de encontrar no bolo. E levava sumo de laranja e um pouco de vinho do porto.

Tinha um sabor magnífico. Uma textura única.

É com saudade que recordo este bolo, tornado tão vulgar, incaracterístico, banalizado e tão detestado por muitos, em especial pelos mais novos, que não conhecem a sua essência, nem ousam tocar-lhe com a mais pequena dentada.

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