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18
Out19

Noite e dia

por Mãe Maria

Sei que há um dia depois de cada noite escura.

Há horas para viver de olhos postos nas cambalhotas de um mundo a girar, em mudança, em movimentos ciclónicos.

Há um dia que morre a cada sorriso que se apaga. Não é a noite que volta, mas a alegria que se mata.

Depois da noite cerrada e de o sol se acender, há corações a bater, em ritmo acelerado, driblando as emoções, umas já conhecidas, outras que aparecem como tumultos, como entes diabólicos.

O dia acorda e há que dar corda aos músculos que o comboio da vida não para, não espera, não trava em estações e apeadeiros.

Cai a noite, o sol apaga-se e as mentes preparam-se para sucumbirem ao estado de alerta, como candeia a extinguir-se. Até haver azeite na amotolia, a vida corre trilhos menos sinuosos, e nas veias corre sangue menos quente, numa fluidez mais serena, em movimentos pausados.

Há, contudo, quem não alcance esse altar do mundo, de clímax, de paz, de um adormecer profundo, não repousando na almofada quente e fofa as erosões do dia.

Sob a luz artificial, do néon, de múltiplas penumbras, há quem estique a torbulência. Chegou-lhes a hora de deixar o corpo vestir-se de gargalhada e folia, de conversa fiada, de beber uns copos de sumo especial, dentro de gaiolas cheias de músicas histéricas e fumos variados. Há que levar o físico a resistir, e se sucumbir, julgam ser o certo, por ser o que lhes prolonga a alegria de viver.

No oposto há quem, sob a luz artificial, se levante para fazer da noite o seu dia. Sob a penumbra há múltiplos olhos que não podem fechar, há rodopios e borboletas na barriga que não se imaginam. Há vida que corre pela noite escura.

O ciclo da vida fecha-se a cada movimento do dia, ora vestido de luz, ora de noite escura, desmaiada, adormecida, para recarregar as baterias gastas, enquanto havia claridade.

Seria a vida perfeita, que acaba por ser imperfeita, só porque jamais seremos perfeitos, se é que a culpa é da perfeição.



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