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4 sapos

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21
Nov19

missão de filho: cuidar dos seus idosos


Mãe Maria

A GNR sinalizou “41.868 idosos que vivem sozinhos e isolados, fragilizados e à mão de criminosos sem escrúpulos. Um cenário triste e desumano este abandono social.

Vivemos dias e dias em constante stress, num reboliço diário, entre as atividades laborais que nos dão o ganho do dia e as tarefas domésticas que incluem levarmos os filhos à escola, mais às múltiplas atividades que queremos que eles estejam envolvidos, as quais muitas estendem-se ao fim de semana. Há ainda o tempo gasto em transportes, mais o trabalho que, por vezes, se estende até casa.

Quando há tempo livre este transforma-se, imediatamente, num tempo precioso, quase ouro, para o laser de consolo da alma, do no far niente, da leitura de um livro que nos espera, na ida ao ginásio que nos desentorpece os membros, no jantar com amigos, na ida a um espetáculo.

Os mais idosos ficam no fim da pirâmide de prioridades. Uns porque estão longe, outros, embora mais perto, achamos sempre que tem força para se aguentarem na vidinha deles e os nossos programas são demasiado para eles. Muitos de nós, consideram que eles chegam a ser um transtorno, ocupando-nos o tempo com conversas que são banhadas a passado e dos vizinhos, ou porque estão doentes e trôpegos para nos acompanharem, ou porque só se lamentam do que já não há e do que já não conseguem ser. E a paciência inquieta-se e não se aproxima, mas afasta-se.

Os poucos que vivem com os progenitores parecem-me uns sortudos. Os outros, facilmente acabam, enquanto as forças lhes durarem, nos seus locais de origem, em completo mar de solidão, num oceano de horas difíceis de passarem, num relógio que geme queixume. Quando as forças lhes acabam, facilmente, por vários motivos, dos mais válidos ou dos mais cruéis, são “chutados” para os lares, para as casas de repouso, ou para as residências, todas com promessas de “cuidar com amor”. É, inevitavelmente, haja disponibilidade financeira, a solução mais fácil quando atingimos o nosso limite de ocupação de tempo e o tempo com eles, excede o nosso.  

É uma realidade muito dura emocionalmente. Não termos lugar para eles na nossa gestão das 24 horas diárias, na nossa casa, no nosso lar, no seio dos que são do seu sangue. Esta  é uma verdade que tenho dificuldade em compreender e que me dói.

IMG_20190810_172804.jpg

Ainda tenho os pais vivos. Mãe de 89 anos, a viver sozinha na antiga casa onde a sua família cresceu. Está autónoma, prefere ficar por ali, nos caminhos que sabe de cor, nas veredas que estão formatadas ao seu pé há mais de 60 anos. Tem companhia ao final do dia e noite de uma senhora que é paga para tal, do filho mais velho que por lá vai almoçar porque sempre assim foi na sua vida de casado, e por vezes, tem a visita de outros dois filhos que habitam na mesma cidade.

Aos fins de semana tem a companhia dos filhos que moram mais longe, numa rotação de calendário. É, por ora, uma exigência sua estar no seu espaço habitual, enquanto as suas forças não caírem por terra. Há que respeitar esta sua vontade. Ainda tem uma cabeça pensante e sabe o que quer.   

A mesma sorte já não acontece com o pai. À beira de fazer 94 primaveras, invernos, verões ou qual outra estação do ano, com dois AVC que lhe foram tirando autonomia e desde o último, que aconteceu há nove meses atrás, está internado num centro de recuperação, numa residência, num Lar, se assim lhe quiserem chamar. Fica longe de todos nós, sendo que fica, ligeiramente mais perto de metade dos filhos. A gestão das visitas não é fácil mas tem-se conseguido que, pelo menos um dos filhos o visite uma vez na semana. Há sábados que estamos lá mais de dois.

Foi uma opção de todos devido à sua debilidade, à sua dependência física de alguém. E onde está, há atenção redobrada que, em casa dele, também nossa porque nos viu nascer e crescer, ou mesmo estando na casa de qualquer um dos seus filhos, talvez não fosse tão perfeita.

E não foi chutado. Não está esquecido. Não está abandonado. Mas a separação física dói. Dói e está-me cravada no peito. Há uma tristeza infinita no fundo de mim mesma por ter de ser assim, fora do seio da família que construiu.

Assumo que, pela parte que me toca, não tenho coragem para assumir ser eu a tratá-lo, em minha casa. Teria de organizar a vida de uma forma que nem consigo imaginar. Seria um esforço acima de 306º.Mas sei no fundo de mim mesma que conseguiria fazê-lo, embora ficassemos todos esfarrapados. Os nossos pais fizeram com os pais deles. No nosso caso, havia uma mãe que era doméstica e é uma diferença gigante nos casos de hoje que ambos trabalhamos fora de casa.

Mas pai e mãe também não ficam de vida virada do avesso para criarem os seus filhos? E mais tarde na ajuda dos netos? E conseguem-no fazer, mesmo em momentos de grandes guerrilhas internas. Porque fugimos, conscientemente ou não, desta missão de filho, o de cuidar dos nossos idosos?

Porque não abrimos as portas de nossas casas para entrarem os pais e sermos, agora nós, os seus cuidadores?

É utopia o que vos digo?

 

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