Chegámos ao mês nove
Maria Castanha

Chegou setembro e do que me lembro, se a memória não me atraiçoa, agosto não passou numa "boa", nem o março, abril, maio, junho ou julho. Passámos estes seis meses carregados de desassossegos, com uma primavera que nos congelou em casa, uma páscoa sem abraços, férias desconfortáveis a fugir do imprevisível. Porém, cresceram os abraços, as risadas e as partilhas virtuais.
Chegámos ao mês nove. Nove meses de uma estrada sinuosa onde o sossego não encontra a luz do dia.
Agora, no palco, iniciou-se a dança dos livros. Tocam-se guitarradas desafinadas. O pessoal não aplaude. O pessoal tenta assimilar. Aulas desencontradas? obrigações novas e hábitos que terão de ser rotinas: rostos de máscaras? recreios sem ajuntamentos? aulas de ginástica com distâncias?
Há um puzzle gigante na mesa dos decisores e cada um toca o seu piano. Uns tocam baixinho. Outros, não se ralam de tocar com teclas quebradas. Já há vozes que clamam discursos menos humanistas: que tombe quem tem de tombar; a economia não pode morrer; o PIb tem de ser controlado.
Há no ar a vontade de ver o puzzle completo e só isso importa.
A incerteza, porém, é a rainha dos dias. A castanha sairá do seu casulo. O Natal encherá as mesas dos que não nunca são afetados pelas crises. O fim do ano terá, de novo, champanhe. Só o fogo, talvez, não será o rei da noite e não irá ilumina noite...
O sistema perfeito nunca foi perfeito e está definitivamente imperfeito.
