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4 sapos

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21
Fev20

Cheque mate no tabuleiro da minha vida


Mãe Maria

Levei um cheque mate no tabuleiro da minha vida e fui, mais uma vez, a Norte, desta vez num dia inesperado. Ia desnorteada com a notícia que sempre sabia que iria chegar, mas que, afinal, nunca estamos preparados para a receber.

O telefone tocou e a notícia foi dispáro de bala direta ao coração. Levei como que um choque elétrico, paralisando metade de mim, tendo a outra metade ficado perdida entre as cinzas do momento.

E a despedida foi entre soluços contidos, regado de lágrimas teimosas, que eu ia secando para não me afogar nesse lago salgado, quase sufocando a alma. Eu não queria que assim fosse mas a serenidade não nasceu comigo.

E, hoje, há um aperto no peito, uma secura na boca. Estou tentando reter a minha dor porque se ela sai, em forma de palavras ditadas, vão gerar confusão, desentendimento, e acabarei mais só.

Contudo, há uma revolta interior difícil de conter, uma rebelião sem sentido pois sei que o sentido da vida é só um: nascer para morrer.

Morreu o homem que me gerou. Levou consigo parte de si. A outra, está em cada um dos seus rebentos. Eu sou uma parte. Não sei se um quarto, se uma milésima. Mas sei que ele deixa comigo  a sua sensibilidade, a poesia da vida mas, acima de tudo, a insatisfação constante que gera revolta interior porque nos achamos incompreendidos.

É lixado, penso eu no fundo de mim mesma. Mas é uma herança que vem do homem por quem nutria um carinho excecional, pelo pai que foi, embora severo por vezes, mas que soube dar uma liberdade infinita às opções de vida de cada um de nós, embora contrárias ao seu pensamento.

Era um artista, não de tablóide, nem sempre compreendido, como qualquer verdadeiro artista, deixando um projeto da sua vida que não vai ter continuidade, parte com ele, com um FIM definitivo. Triste ser assim, pensaria ele, se pudesse saber deste destino. A obra sim, irá permanecer visível no património histórico, na arte sacra de várias cidades, vilas e aldeias deste país, onde ele deixou tudo de si, pensando na obra não no dinheiro.

Era amigo do seu amigo e tudo dava, mesmo que tivesse de tirar de si mesmo e dos seus.

Era imperfeito como qualquer um de nós o é. Fez sofrer e sofreu muito. Construiu e destruiu muito castelo de cartas. Lutou e foi vencido um milhão de vezes. Amou a vida como ninguém e agarrou-se a ela até as luzes do palco se apagarem. Desejou partir antes da sua hora marcada outro milhão de vezez, sempre que o desespero lhe toldava a alma. Era um homem de fé, de convicções políticas sérias que lhe tiravam o sono em longos discursos inflamados noite dentro. Era um desconhecido e conhecido entre muitos.

E, hoje, restamos nós, que basta olharem para o nosso rosto, logo somos identificadas como uma das filhas do artista da cidade que não o viu nascer mas, onde cresceu e se fez o homem que ele foi: de coração quente e cor do fogo, tal qual o calor e a cor do por-do-sol (dizem, que eu não conheço) da terra onde nasceu, moçambique. 

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